Nabal

NABAL: Os maridos deste século!

Sou uma mulher, mãe, esposa, um ser humano vivendo em um mundo absolutamente carente. Vivo em um mundo onde milhões de mulheres solteiras não querem casar, e muitas mulheres casadas estão desesperadas para dar um fim à solidão e ao caos em que vivem.

O que eu sempre digo: casamento é para os fortes! E ponto final.

São tantos casamentos que vivem a experiência diária da convivência com um homem Nabal.

Quem é Nabal? Na Bíblia, ele é o homem insensato que não deu ouvidos ao pedido de Davi; ele era um homem rico, arrogante e cruel (1 Samuel 25).

O Nabal é o marido que tem uma esposa, casa, família, trabalho, bênçãos em sua vida, mas não consegue enxergar.

Sua esposa está ao seu lado, lutando, entregando o seu melhor, ajuda em tudo o que pode; seus filhos o respeitam, o apoiam, são sinceros e amorosos, mas… 99% não é o suficiente, então nada está bom. Todas as decisões são só dele, sem questionamentos ou argumentações; seu celular e suas contas bancárias são cofres com mil senhas, seus amigos são ocultos, e ele esconde até a respiração na hora de dormir com travesseiros para bloquear a proximidade da esposa. O recado é claro: “Eu não preciso de você, eu não quero que me toque”.

Para ele, todos são os causadores da sua miserável vida patética.

O Governo — seja de direita ou de esquerda, podendo até ser do Centrão, não importa qual seja o comandante do ano em vigor — é o culpado; os prejuízos são culpa do tempo (muito sol, muita chuva), dos parentes com seus problemas, das ex-companheiras, dos filhos, sobrinhos, agregados, etc., e por aí vai.

Todos são um transtorno, mas a principal causa da sua ira é a esposa, este estorvo que convive diariamente com ele.

Esta senhora chamada “patroa”, “senhora confusão”, “senhora chata e intrometida”, é o seu pior inimigo. Porém, na hora do amorzinho, quando ele tem vontade — ah!! —, nesta hora ela não é!

Na hora de lavar, passar e cozinhar, ela não é; na hora de manter a casa arrumada, a roupa lavada e passada, ela não é; submissa, quietinha, calada, ela não é…

Você conhece algum Nabal? Eu conheço muitos assim.

Na rua, um gentleman, educado, dedicado, atento, admirável, sorridente, carinhoso, um galã de novela, por demais eloqüente. Em casa, no entanto, é o senhor do silêncio mortal, carrancudo, irado, cruel, desprovido de amor, de alegria, de consideração, de empatia e de resiliência.

Se ela pede o divórcio, ele quer matar — feminicídio justificado para ele. Se fica, ele quer pegar a correia de ferro, passar a chibatada nas costas dela, e, se fala alguma coisa, vira um problemão por dias e meses.

Se escuta uma queixa, o Nabal é o ogro, agreste, o rústico das cavernas; se ela tenta conversar, são só palavras monossílabicas: sim, não e o famoso “O quê? Que saco! Eu quero ficar em paz!”, e lá se vai um enorme palavrão!

Nada está bom aos seus olhos, nada está a seu agrado.

Não olha para a esposa, não conversa, não se preocupa em lhe dar um pingo sequer de atenção. É um casamento insosso, sem vida e sem emoção, marcado por desgaste, lágrimas, sofrimento e total desilusão.

Os Nabais da vida estão espalhados por aí: nas casas de condição humilde, tratando suas esposas como um fardo, como um saco de pancada; nas casas onde há um certo nível financeiro, eles são cruéis e praticam a violência silenciosa; e nas casas dos abastados, onde os Nabais são os tóxicos e narcisistas natos. No final, seja na classe humilde, média ou alta, são todos iguais, totalmente iguais: os silenciosos cruéis, muitas vezes os adúlteros velados, em que a esposa não pode reclamar em hipótese alguma — afinal, a comida está na mesa, a carteira está recheada e a mansão está impecável.

Não tem como entender como homens tão abençoados podem ser tão covardes para parar, sentar e conversar, para buscar um diálogo limpo e saudável, para brincar com sua família, para serem presentes e entenderem que o dinheiro não é tudo, que os problemas não são culpa da esposa e dos filhos, mas sim de suas próprias escolhas, e que a sua família não é sua inimiga.

Neste século, acabou-se a “uma só carne”, acabou-se a aliança de ouro e o amor declarado na hora do “sim” para “até que a morte nos separe”.

O amor sumiu, a dor cresceu, e o que fica é uma esposa tentando vencer seus próprios medos, suas próprias dores, suas lutas internas e externas, TPM e hormônios em ebulição…

Na real, manter a serenidade diante do abandono, da indiferença e da profunda ignorância é digno de muita estrutura emocional, psicológica, financeira e mental.

Ter fé, pedir ajuda, sair com as amigas, comer chocolate, tomar uma taça de vinho, agradecer o silêncio da casa vazia enquanto ele não chega, e seguir aprendendo a se fortalecer para não morrer de traumas e decepções é a melhor e mais acertada solução.

Somos muitas Abigaius casadas e cansadas com os Nabais da vida (não falo das raras exceções, é claro).

Fica a reflexão, e até a próxima.

Simone Paula Prz.

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